Pular para o conteúdo
REI ARTURHistória e lenda

Morgana

Morgan le Fay, a Senhora dos Encantos
Pintura de Morgana em pé diante de um tear e de um braseiro, de cabelos ruivos e vestido verde e amarelo com pele de leopardo na cintura, estendendo as mãos sobre uma lamparina acesa diante de uma veste pendurada que começa a pegar fogo
Frederick Sandys, 1864 · Public domain · Fonte

Morgana é a feiticeira ambígua da lenda de Arthur, quase sempre irmã ou meia-irmã do rei. Nasce como curandeira benevolente da Ilha das Maçãs, em Geoffrey de Monmouth, e nos romances posteriores se torna a rival da corte, mas ainda assim acompanha Arthur na viagem final a Avalon.

Na lenda

Em Malory, Morgana é a mais nova das três filhas de Igraine com o duque da Cornualha, e portanto meia-irmã de Arthur. Quando o duque morre e Igraine se casa com Uther, ela é mandada a um convento, onde aprende tanto que se torna grande mestra de necromancia. Mais tarde casa-se com o rei Uriens de Gorre e é mãe de Uwaine (Yvain), que se torna um dos cavaleiros da Távola.

O maior episódio de sua vida é o complô contra o irmão, em Malory. Seu amante, Sir Accolon, recebe dela Excalibur e a bainha, enquanto Arthur recebe uma cópia falsa. Em duelo, os dois combatem sem se reconhecer, e Arthur só não morre porque a Dama do Lago intervém e faz Accolon perder a espada, que o rei recupera. Accolon morre poucos dias depois. Morgana, que sabe que o irmão virá atrás dela, finge calma, vai até a abadia de freiras onde Arthur dormia e tenta pegar Excalibur. Não consegue tirar a espada da mão do rei, mas leva a bainha. Perseguida por Arthur, ela a atira num lago, jurando que o irmão não a terá, e se transforma, com seu grupo, numa grande pedra de mármore, para escapar.

Morgana tenta também matar o marido adormecido com a espada dele, mas é impedida pelo filho Uwaine, que lhe perdoa a vida em troca de promessa de nunca mais agir assim. Os ardis de Morgana continuam em outras partes de Malory, contra Arthur e contra cavaleiros como Lancelot.

O desfecho, porém, a redime. Depois de Camlann, quando Arthur ferido é levado ao lago, aparece uma barca com rainhas vestidas de negro, que choram. Uma delas o acolhe no colo e diz: “Ah, querido irmão, por que demorastes tanto a vir a mim?”. Malory conta que uma das rainhas é Morgana, e ao lado dela, Nimue, chefe das damas do lago.

Origens e fontes

A Morgana mais antiga não é uma inimiga. Em Vita Merlini (c. 1150), Geoffrey de Monmouth descreve a ilha das Maçãs, onde nove irmãs governam. A primeira delas, Morgen, é a mais hábil em curar, ensina matemática e astronomia às irmãs e pode mudar de forma e voar. Ela recebe Arthur ferido, trazido por Taliesin, e promete curá-lo. Ela não é, nesse texto, irmã do rei. Geoffrey talvez tenha se inspirado nas nove sacerdotisas da ilha de Sein, descritas pelo geógrafo romano Pomponius Mela.

O nome aparece em outros textos do século XII. Chrétien de Troyes já a cita em Erec e Enide (c. 1170): Arthur usa um bálsamo feito por sua irmã Morgue para curar o herói, e é um dos primeiros textos a chamá-la de irmã do rei. Na tradição galesa, a mãe de Owain, o Yvain dos romances, é Modron, e alguns estudiosos veem nela uma antecessora de Morgana. Gerald de Gales, no mesmo século, diz que uma nobre parente de Arthur chamada Morganis o levou para sua ilha de Avalon, que ele identifica com Glastonbury. O nome Morgen pode significar “nascida do mar”.

Como mudou ao longo do tempo

Nos romances do século XIII, em especial no ciclo da Vulgata e na Pós-Vulgata, Morgana se torna filha de Igraine, aluna de Merlin, mulher de Urien e inimiga implacável. Ela tem amantes, entre eles Accolon, sente uma paixão não correspondida por Lancelot e nutre um ódio particular por Guinevere. A cada romance, o equilíbrio entre benfeitora e vilã muda. Em Malory, o escritor inglês que fixou a imagem mais conhecida, ela é a maior inimiga de Arthur mas se reconcilia com ele no fim e o acompanha a Avalon. O epíteto “le Fay” teria sido criado por Malory a partir do francês la fée, “a fada”.

Mesmo em Chrétien, que a mostra apenas como curandeira, ela já vive num lugar misterioso, o Vale Perigoso, que autores posteriores dizem ter sido criado por ela como prisão para cavaleiros infiéis. A ambiguidade é sua marca. O estudioso Roger Sherman Loomis sustentou que Morgana e a Dama do Lago foram, originalmente, a mesma personagem, e a figura da fada se dividiu em duas, uma que ajuda Arthur e outra que o ameaça. Nas versões modernas, é comum fundi-la com Morgause, a irmã que gera Mordred, e por isso muitos leitores pensam em Morgana como mãe de Mordred. Em Layamon, que escreve em torno de 1215, quem leva Arthur a Avalon é uma rainha élfica chamada Argante, nome que talvez tenha sido, antes, uma forma de Morgana.

Nas adaptações

No século XIX, Frederick Sandys a pintou em pleno feitiço, em Morgan le Fay (1864), imagem que ilustra esta página. No século XX, As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, a faz protagonista e a conta como uma sacerdotisa de Avalon, e dá a ela o ponto de vista que a tradição lhe negava. Na série Merlin, da BBC (2008–2012), Morgana é pupila de Uther e, no fim, revela-se filha ilegítima dele. Nos romances de Bernard Cornwell, é filha ilegítima de Uther.

Fontes e leituras

  • Geoffrey de Monmouth, Vita Merlini (c. 1150).
  • Chrétien de Troyes, Erec e Enide (c. 1170).
  • Gerald de Gales, De principis instructione (final do século XII).
  • Ciclo da Vulgata (Lancelot-Graal) e Pós-Vulgata, século XIII.
  • Thomas Malory, Le Morte d’Arthur, Livros I, IV e XXI (Project Gutenberg #1251 e #1252).
  • Camelot Project, Universidade de Rochester.
Aconteça o que acontecer comigo, meu irmão não terá esta bainha.
— Morgana, em Thomas Malory, Le Morte d'Arthur, Livro IV, cap. XIV (Gutenberg #1251), em tradução nossa

Veja também