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REI ARTURHistória e lenda

Guinevere

A rainha de Camelot
Pintura de Guinevere de pé, de coroa de ouro e véu claro, com manto escuro sobre um vestido vermelho e dourado, olhando para o lado; ao fundo, um navio no mar e uma figura menor atrás da rainha
James Archer, c. 1860 · Public domain · Fonte

Guinevere é a esposa de Arthur e o centro trágico da lenda. Seu amor por Lancelot, em boa parte das versões, abre a ferida que divide a Távola Redonda e leva o reino à ruína. Em Geoffrey de Monmouth, ao contrário, ela trai o rei com o próprio Mordred.

Na lenda

Na versão de Malory, Arthur já é rei, mas seus barões não lhe dão descanso e exigem que se case. Ele diz a Merlin que ama Guinevere, filha de Leodegrance, rei de Cameliard. Merlin concorda que ela é uma das mulheres mais belas do mundo, mas o avisa de que Lancelot a amará e será amado por ela. Leodegrance ficou feliz com o pedido e manda como presente de casamento a Távola Redonda, que Uther Pendragon lhe dera, com cem cavaleiros.

Os primeiros anos da rainha são de festa, mas as duas histórias que a definem são as do rapto e as do adultério. Em Malory, num dia de maio, Guinevere sai para colher flores com dez cavaleiros da Távola, todos vestidos de verde, e é capturada pelo cavaleiro Meliagrance. Lancelot a resgata. Mais tarde, Agravain e Mordred armam uma emboscada e flagram Lancelot no quarto da rainha. Guinevere é condenada à fogueira. Gawain se recusa a assistir, e Lancelot chega a tempo de salvá-la, mas mata vários cavaleiros. A guerra entre Arthur e Lancelot só termina quando o papa intervém e Lancelot devolve a rainha ao marido.

Enquanto Arthur luta no exterior, Mordred se proclama rei e quer se casar com Guinevere. Em Malory, ela finge concordar, pede licença para ir a Londres comprar o necessário ao casamento e se tranca na Torre de Londres, que Mordred cerca em vão. Depois de Camlann, Guinevere se refugia em Almesbury, onde se torna freira e depois abadessa. Lancelot a procura, e ela lhe pede que nunca mais a veja, dizendo que a guerra e a morte dos melhores cavaleiros vieram do amor dos dois. Quando ela morre, Lancelot leva o corpo a Glastonbury, onde ela é sepultada ao lado de Arthur.

Origens e fontes

O nome galês Gwenhwyfar pode ser traduzido como “a fada branca” ou “a assombração branca”. Ela já aparece como esposa de Arthur na narrativa galesa Culhwch ac Olwen, mas só em uma lista de bens do rei. As Tríades galesas falam de três Gwenhwyfar casadas com Arthur, filhas de pais diferentes, e de uma irmã, Gwenhwyfach, cuja briga com a rainha teria causado a batalha de Camlann.

A primeira narrativa maior é a de Geoffrey de Monmouth, em 1136. Ali ela se chama Guanhumara, é de família romana e se educou sob o duque Cador da Cornualha. Arthur a deixa sob a guarda do sobrinho Mordred quando parte para guerrear contra os romanos, e ela se casa com ele, que tomara a coroa. Ao saber da derrota dele, foge para Caerleon e se faz freira. Na Vita Gildae, de Caradoc de Llancarfan, ela é raptada por Melwas, o mesmo tipo de episódio que Chrétien de Troyes retoma por volta de 1180, em Lancelot, o Cavaleiro da Carreta. Ali, o raptor é Meleagant e o salvador, Lancelot, e o amor entre os dois é apresentado como um amor cortês, de devoção da dama.

Como mudou ao longo do tempo

A rainha da tradição galesa é uma figura de contornos pouco claros, e a memória popular não a poupava: um dito popular galês, que ficou registrado, dizia que Gwenhwyfar, filha de Ogfran, o Gigante, era má quando pequena e pior quando grande (paráfrase). A de Geoffrey é uma traidora, ligada ao colapso do reino. O poeta Wace, no Roman de Brut (século XII), faz do amor de Mordred por ela o próprio motivo da rebelião, e o poema inglês Alliterative Morte Arthure mostra uma rainha que conspira contra o marido enquanto finge devoção. Em Chrétien, ela se torna uma dama no centro de um ideal de amor. Os romances em prosa do século XIII transformam esse amor no motivo da queda de Camelot. Em alguns deles, uma falsa Guinevere, igual à verdadeira, tenta tomar seu lugar.

Malory reúne tudo isso e dá à rainha um fim de arrependimento: Guinevere reconhece a parte que lhe cabe na ruína e passa o resto da vida em penitência. Ela é também uma das figuras mais discutidas pelos leitores modernos: para uns, a causa da ruína, para outros, uma mulher presa num jogo de poder. Há ainda a inimizade de Morgana, que, nos romances, nutre uma hostilidade especial pela rainha.

Quase sempre, na lenda, Guinevere não tem filhos. As poucas exceções são tradições em que Arthur tem um filho chamado Loholt, e uma versão inglesa tardia em que ela dá filhos a Mordred.

Nas adaptações

No século XIX, a rainha ganha nova vida na poesia. William Morris publica The Defence of Guenevere (1858), em que ela se defende de acusações, e Tennyson escreve “Guinevere”, um dos Idylls of the King (1859). O musical Camelot (1960) e o filme de 1967 voltam ao triângulo com Lancelot e Arthur. Excalibur (1981) a coloca ao lado de Cherie Lunghi. Em As Brumas de Avalon (1982), de Marion Zimmer Bradley, ela é a cristã devota de uma corte dividida entre fés, e o romance popularizou a grafia galesa Gwenhwyfar. Na série Merlin, da BBC (2008–2012), Guinevere (Gwen) é filha de um ferreiro e criada de Morgana, um papel bem distante do da princesa da lenda.

Fontes e leituras

  • Culhwch ac Olwen, no Mabinogion (tradução de Lady Charlotte Guest).
  • Geoffrey de Monmouth, Historia Regum Britanniae (c. 1136), Livros IX a XI, tradução de Aaron Thompson revista por J. A. Giles.
  • Caradoc de Llancarfan, Vita Gildae (século XII).
  • Chrétien de Troyes, Lancelot, o Cavaleiro da Carreta (c. 1180).
  • Thomas Malory, Le Morte d’Arthur, Livros III, XIX, XX e XXI (Project Gutenberg #1251 e #1252).
  • William Morris, The Defence of Guenevere and Other Poems (1858).
  • Alfred Tennyson, Idylls of the King (1859).
  • Rachel Bromwich, Trioedd Ynys Prydein (as Tríades galesas).
Por meio deste homem e de mim foi feita toda esta guerra, e a morte dos mais nobres cavaleiros do mundo.
— Guinevere a Lancelot, em Thomas Malory, Le Morte d'Arthur, Livro XXI, cap. IX (Gutenberg #1252), em tradução nossa

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