Uther Pendragon
O cabeça de dragão
Uther Pendragon é o rei dos bretões e pai de Arthur. Seu desejo por Igraine, atendido pela magia de Merlin, dá origem ao futuro rei, e seu epíteto, que significa "cabeça de dragão" em Geoffrey de Monmouth, vem de um presságio no céu.
Na lenda
Uther é o mais jovem dos filhos de Constantino, rei da Bretanha. Com o irmão Aurelius Ambrosius, ele foge para a Bretanha continental quando o usurpador Vortigern toma o poder, e os dois voltam adultos para vingar a família. Aurelius assume a coroa. Um dia, quando Uther marcha com o exército, aparece no céu um astro com um raio em forma de dragão. Merlin o interpreta: Aurelius morreu, Uther será rei, e o raio aponta para um filho poderoso. Uther manda fazer dois dragões de ouro, um para a catedral de Winchester e outro para ser levado como estandarte, e por isso passa a se chamar Pendragon, “cabeça de dragão”, segundo Geoffrey.
O reinado é marcado por uma paixão. Num banquete, Uther se encanta com Igraine, mulher do duque Gorlois da Cornualha. O duque se retira da corte e o rei lhe declara guerra. Gorlois esconde a esposa em Tintagel e se fortifica em outro castelo. Merlin dá a Uther a aparência do duque, e o rei passa a noite com Igraine. Dessa noite nasce Arthur.
Em Malory, o encontro tem um preço. Merlin exige, em troca do favor, que a criança lhe seja entregue ao nascer, e o rei jura. O menino é levado em segredo e criado por Sir Ector. Em Malory, o duque morre três horas antes de Uther chegar a Tintagel, e o rei se casa com a viúva treze dias depois. Perto do fim, Uther adoece. Carregado numa liteira, vence o inimigo em St. Albans, mas morre pouco depois, depois de reconhecer Arthur como herdeiro diante dos barões.
Origens e fontes
Os textos galeses mais antigos citam um Uthr, mas dizem pouco sobre ele. Num poema do Livro de Taliesin (a “Canção da morte de Uther Pen”), ele é lembrado, e uma das Tríades galesas o apresenta como autor de um dos Três Grandes Encantamentos da Ilha da Bretanha, o que leva alguns estudiosos a supor que, na origem, talvez fosse um feiticeiro. O poema Pa gur o cita de passagem, e a “Canção da morte” inclui uma referência a Arthur, o que sugere alguma ligação entre os dois, mas esses textos não contam a história do pai de Arthur: ela é de Geoffrey.
A narrativa extensa da vida de Uther aparece na Historia Regum Britanniae (c. 1136), de Geoffrey de Monmouth. Geoffrey o faz irmão de Aurelius, rei dos bretões, pai de Arthur e de uma filha, Anna, que se casa com Lot. Em Geoffrey, o duque Gorlois morre durante o cerco, e Uther, depois de casado, adoece. Os saxões envenenam a fonte de onde ele bebia, e Uther é sepultado em Stonehenge, que Geoffrey chama de Dança dos Gigantes.
Em Robert de Boron, a história muda de peso. Aurelius, e não Uther, é quem recebe o nome Pendragon ao ver o astro, e Merlin faz para Uther a Távola Redonda, que mais tarde passa às mãos de Leodegrance e volta a Arthur como dote de Guinevere.
Como mudou ao longo do tempo
O epíteto é uma boa pista do caminho. Em poemas galeses medievais, pen dragon é um título de “chefe de guerreiros”, e Geoffrey o lê como “cabeça de dragão” e cria o episódio do astro para explicá-lo. Já a questão moral da noite em Tintagel varia. Em Geoffrey, o duque morre no cerco durante a mesma noite. Malory insiste que o duque já estava morto quando Uther chegou e que o filho foi legitimado pelo casamento. No filme Excalibur (1981), o desejo do rei é tratado como violência e serve de origem ao ódio da filha de Igraine, Morgana, contra a família.
Nas adaptações
Uther raramente é protagonista. Em Excalibur (1981), de John Boorman, ele é um guerreiro dominado pela paixão por Igraine, que acaba com ele. Em The Once and Future King, de T. H. White, é um rei normando. Na série Merlin, da BBC (2008–2012), ele proíbe a magia em Camelot, e a série faz de Morgana sua filha ilegítima. Jack Whyte lhe dedicou um romance inteiro, Uther (2000).
Fontes e leituras
- Geoffrey de Monmouth, Historia Regum Britanniae (c. 1136), Livros VIII e IX, tradução de Aaron Thompson revista por J. A. Giles.
- Thomas Malory, Le Morte d’Arthur, Livro I (Project Gutenberg #1251).
- Livro de Taliesin, “Marwnad Uthyr Ben”.
- Rachel Bromwich, Trioedd Ynys Prydein (as Tríades galesas).
- Camelot Project, Universidade de Rochester.
Dou-lhe a bênção de Deus e a minha, e peço-lhe que reze pela minha alma e que reivindique a coroa com justiça e honra, sob pena de perder a minha bênção.
Veja também
Nota do Historiador
Uther surge em alguns poemas galeses antigos, mas sua figura como rei e pai de Arthur é essencialmente uma construção de Geoffrey de Monmouth, no século XII. Não há evidência histórica de que tenha existido.