A Espada Era a Lei (1963)
O Arthur menino da Disney
Animação de longa-metragem dos estúdios Disney, dirigida por Wolfgang Reitherman, baseada no primeiro livro de The Once and Future King, de T. H. White. Conta a infância de Arthur, chamado de Wart, e seu aprendizado com o mago Merlin.
Sinopse
Com a morte do rei Uther Pendragon sem herdeiro, a Inglaterra mergulha no caos. Surge então uma espada cravada em uma bigorna sobre uma pedra, com uma inscrição que declara rei de toda a Inglaterra aquele que a retirar. Ninguém consegue, e a espada fica esquecida.
Anos depois, um menino órfão apelidado de Wart vive no castelo de Sir Ector, seu tutor, e serve de pajem ao irmão de criação, Kay, que sonha em ser cavaleiro. Ao perseguir uma flecha perdida na floresta, Wart encontra o mago Merlin, que enxerga o futuro e se declara seu professor. Merlin e sua coruja Arquimedes levam o menino para o castelo, para desgosto de Ector, que não vê utilidade nos estudos.
Merlin transforma Wart em peixe, esquilo e pássaro para ensinar lições sobre força, inteligência e o perigo. Há perseguições, um lúcio faminto, uma esquilinha apaixonada e um duelo mágico em que Merlin enfrenta a bruxa Madame Min, que se transforma em dragão. Durante a ida a um torneio, Wart percebe que esqueceu a espada de Kay e sai para buscar outra. Encontra a espada na pedra e a retira sem esforço. Revelado como rei, é coroado, e Merlin, que voltara do século XX, volta a ampará-lo.
Produção
A Disney comprou os direitos do romance de T. H. White em 1939, mas o projeto passou décadas esperando. O roteiro foi escrito por Bill Peet, as canções ficaram com os irmãos Sherman e a música com George Bruns. Wolfgang Reitherman assumiu a direção, no primeiro longa em que atuou como diretor único, depois de ter codirigido outros filmes do estúdio.
Tecnicamente, a animação usou o processo de xerografia que a Disney consolidara em 101 Dálmatas (1961), com o traço mais solto dos desenhos que passavam diretamente do lápis para o acetato. A voz de Arthur foi dividida entre três atores: Rickie Sorensen, que passou pela mudança de voz durante a produção, e os irmãos Richard e Robert Reitherman, filhos do diretor. A mudança de timbre é perceptível em algumas cenas.
O filme foi indicado ao Oscar de melhor trilha (adaptação) na cerimônia de 1964, que premiou Irma la Douce.
O que muda em relação à lenda
A Disney não adapta Geoffrey de Monmouth nem Malory, mas sim o livro de White, que já era uma releitura bem-humorada de Malory. Em Malory e nas fontes francesas, Arthur é filho de Uther e Igraine, criado em segredo por Sir Ector, e sua identidade é reconhecida pela prova da espada. O filme conserva essa estrutura, mas a infantiliza: Wart é um garoto desastrado, a espada surge quase por acaso quando Kay a esquece, e a questão da paternidade nem é mencionada.
Merlin é a maior transformação. Nas tradições antigas é profeta e conselheiro de reis. Em White, vive o tempo ao contrário, lembra o futuro e fala de aviões e de eletricidade, e o filme herda essa comicidade. A bruxa Madame Min, que não existe em Malory, é uma invenção de White, e o duelo de transformações, uma das cenas mais famosas, também vem do livro. Ausentes estão Guinevere, Morgana e a Távola Redonda, só sugerida no fim. Em compensação, a espada é a da pedra, não a Excalibur dada pela Dama do Lago, distinção que Malory faz e que a lenda popular costuma misturar.
Recepção e legado
A crítica foi dividida na época, e as resenhas costumam apontar uma narrativa episódica e humor irregular, embora louvem os personagens e as sequências de transformação. Não usamos pontuações atuais de agregadores como um dado fixo da história do filme.
Com o tempo, ganhou o estatuto de clássico da infância e é a imagem de Arthur e Merlin mais conhecida de muitos brasileiros que cresceram com os filmes da Disney. A canção “Higitus Figitus” e a cena do duelo com Madame Min seguem entre os momentos mais lembrados, e a imagem do menino que puxa a espada ajudou a popularizar a ideia de que Arthur foi, antes de tudo, um escolhido de origem humilde.
Aprender antes de governar
A opção por terminar na eleição do jovem rei altera a pergunta central. O público não acompanha a queda de Camelot nem precisa julgar o adultério ou a guerra entre antigos aliados. A questão é que tipo de educação pode preparar alguém que ainda não sabe que terá poder. As transformações de tamanho e de espécie permitem que o menino experimente vulnerabilidade, desejo e perigo em vez de ouvir apenas uma lição abstrata.
O humor depende também do contraste entre o mundo prático de Ector e o conhecimento de Merlin. As tarefas da casa parecem urgentes, enquanto estudar parece dispensável. A história conduz o espectador a rever essa hierarquia: uma habilidade que ajuda a sobreviver num episódio pode ser mais importante que uma aparência de força. Esse é um caminho de leitura do filme, não uma descrição do modo como os textos medievais narravam a formação de todos os reis.
O encerramento mantém uma abertura. Ser escolhido pela espada não resolve todos os problemas que uma vida de governo trará. O menino continua precisando de orientação. Para comparar a animação com Malory, é útil começar pelo que ela decidiu não contar: a diferença não é só de tom, mas também de recorte e de finalidade narrativa.
Fontes e leituras
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T. H. White, The Sword in the Stone (1938), primeiro livro de The Once and Future King (1958).
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Thomas Malory, Le Morte d’Arthur (1485).
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Wikipédia em inglês, “The Sword in the Stone (film)”: https://en.wikipedia.org/wiki/The_Sword_in_the_Stone_(film)
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Disney, The Sword in the Stone, ficha oficial.
Veja também
Nota do Historiador
A história se passa em uma Inglaterra medieval de fantasia, sem época definida. Merlin, que em Geoffrey de Monmouth e nas fontes mais antigas é profeta, aparece aqui como um professor excêntrico que viaja no tempo. O Arthur histórico, se existiu, não tem qualquer ligação com esse mundo.